Quando eu era pequeno, ficava muito incomodado quando viajava e ouvia de outras pessoas que Manaus "deve ser só mato". Que devia ter "onça na rua", "jacaré por todo lado". Achava um desconhecimento, afinal todos os eletrônicos que a pessoa tinha deveriam ter saído do Polo Industrial de Manaus.
Hoje não mudou tanto, as pessoas ainda falam exatamente o mesmo e eu continuo incomodado. Mas de outra forma.
Antes incomodava por ser mentira. Agora incomoda porque eu queria muito que fosse verdade.
Se fosse verdade, talvez não existisse 8,8°C de diferença entre a Reserva Adolpho Ducke e um bairro populoso. Não existiria uma diferença que já chegou a incríveis 11,3°C entre 2 regiões da cidade.
Dizer que Manaus está ficando mais quente não basta. É preciso saber onde, desde quando e por quê.
A Reserva Adolpho Ducke é a maior mancha de floresta contígua da grade (489 km²), claro sinal de teimosia. E quanto mais longe dela, mais quente. Até atingir um plateau, seja porque tem um limite pro efeito ou porque, querendo ou não, ao redor de Manaus ainda existe verde, por mais que tenha sumido da cidade.
°C médio por faixa de distância, todas as 2.040 células
A maior parte da mancha urbana de Manaus já estava consolidada em 2001. Não sobrava vegetação pra perder ali. Mas existe um recorte de espaço e de tempo onde dá pra ver os dois efeitos juntos: Cidade Nova, na divisa entre a cidade e a floresta.
variação % em relação à média de 2001–05 · eixo verde (esquerda) é NDVI, o índice de vegetação calculado por satélite, eixo vermelho (direita) é LST, a temperatura da superfície captada por satélite (diferente da temperatura do ar), cada um na própria escala
Eixo duplo: as duas linhas usam escalas diferentes (cada uma com o próprio máximo, para cima e para baixo), não a mesma régua. Os dois 0% ficam alinhados na grade do meio, então olhe a cor de cada eixo antes de comparar os números.
Em termos futebolísticos: são quase 8.000 campos de futebol. São 57 km² de Manaus deixaram de ser considerados verdes entre o início e o fim da série (2001 a 2025). É quase o tamanho da própria Reserva Adolpho Ducke: uma reserva inteira perdida em pedaços pela cidade, em apenas uma geração.
variação de NDVI, o índice de vegetação por satélite (%), vs. variação de temperatura diurna de superfície (°C) · eixo recortado em ±50% para legibilidade
No Aleixo, a vegetação se manteve estável e o calor subiu no ritmo normal da cidade. Em Petrópolis, um dos maiores picos de calor já documentados, a vegetação que ainda restava caiu 22% no mesmo período e a temperatura praticamente não se moveu. Talvez porque Petrópolis já tivesse batido no teto de calor local muito antes de 2001. Não sobrava vegetação cujo desaparecimento pudesse esquentar ainda mais o ar. Ou porque o pouco verde ao redor da cidade ainda oferece alguma resistência.
O maior efeito de vegetação e calor que encontramos está numa área de expansão recente (Cidade Nova). Conter o avanço da cidade sobre a floresta hoje ainda muda o resultado daqui a 20 anos, ou o padrão já está definido demais pra frear?
As palmeiras imperiais, que já foram projeto urbanístico na cidade, foram uma escolha visual que não entregou sombra nem resfriamento. Da mesma forma, hoje trocam-se árvores em um bairro com a promessa de serem plantadas em outro, como se fosse uma matemática simples. "É, retirei as árvores de lá, mas plantei em dobro a quilômetros de distância".
O padrão histórico de rodovias na Amazônia é bem documentado: elas trazem desmatamento. Mas ficar isolado geograficamente não é uma solução. Ferrovias também trazem impacto, aviação custa caro e tem grande emissão de poluentes. Existe solução?
A cidade inteira esquenta quase no mesmo ritmo que a área verde ao redor, sinal de que parte disso é clima regional (seca, El Niño), e não só Manaus. A cidade é tanto vítima de si quanto do resto do planeta. Mas sem resolver o problema aqui dentro, podemos cobrar solução lá fora?